VIVER A BREVIDADE DA VIDA SEM PERSPECTIVA DA ETERNINDADE DE DEUS É LOUCURA
Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. – Salmos 90.4
▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪
┌E mbora, pela esperança, estejamos convencidos de que ao completarem seu curso no mundo as pessoas são logo, então, retiradas dele, a consciência dessa fragilidade não consegue deixar uma profunda impressão em nossos corações, porque não voltamos olhar para além do mundo. De onde procede a grande estupidez das pessoas que, presas ao estado atual da existência, prosseguem com os afazeres da vida como se fossem viver dois mil anos, senão por não elevarem seus pensamentos acima das coisas visíveis?
Cada pessoa quando se compara com as outras, ilude-se ao acreditar que, dentre elas, viverá até uma idade muito avançada. Em suma, as pessoas são tão insensatas a ponto de imaginar que trinta anos, ou até mesmo menos disso, equivalem, por assim dizer, a uma eternidade e, tampouco, não se deixam impressionar pela brevidade de sua vida, enquanto este mundo ocupa seus pensamentos.
Essa é a razão por que Moisés nos desperta ao conduzir nossas mentes a se voltar à eternidade de Deus, pois sem essa perspectiva não percebemos quão rapidamente se esvai nossa vida. A imaginação de que teremos uma vida longa assemelha-se a um sono profundo, no qual ficamos todos fora de si, até que a meditação sobre a vida celestial dissipe essa fantasia tola a respeito da duração de nossa permanência na Terra.
Como as pessoas estão desse modo cegas, Moisés coloca Deus diante deles para vê-lo como seu Juiz. É como se dissesse: "Ó Senhor, se as pessoas refletissem devidamente sobre aquela eternidade, de onde contemplas os revês inconstantes deste mundo, para não darem tanto valor à vida presente." Mas como, em vez de considerarem seriamente qual é a verdadeira duração, eles desviam intencionalmente os olhos do céu, o que explica por que são tão estúpidos e encaram um dia como se fossem cem anos. A apóstrofe de Moisés a Deus é enfática, sugerindo que ele se dirige a Deus porque sua paciência estava se esgotando à vista de nossa tamanha irreflexão e que isso era trabalho sem propósito para ele, como falar a surdos que não queriam aprender que eram mortais, nem mesmo diante das provas disso, que a experiência lhes apresentava constantemente.
Este texto é citado pelo apóstolo Pedro com um sentido um pouco diferente (2 Pedro 3:8), embora, na mesma ocasião, ele não o distorça, pois aplica o testemunho de Moisés apropriadamente e judiciosamente para ilustrar o assunto que ali é tratado. O propósito de Moisés é elevar as mentes das pessoas ao céu, afastando-as de suas próprias concepções grosseiras. E qual é o objetivo de Pedro?
Como muitos, porque Cristo não apressa a sua vinda conforme o desejo deles, abandonaram a esperança da ressurreição dado ao cansaço da longa demora, ele corrige essa impaciência descabida usando um remédio muito apropriado. Ele percebe que a fé das pessoas nas promessas divinas vai se desfalecendo e fraquejando por pensarem que Cristo está adiando demais sua vinda. De onde provém isso, senão do fato delas se encurvarem à terra? Portanto, Pedro aplica apropriadamente estas palavras de Moisés para curar esse vício. Assim como a rendição aos prazeres, aos quais os descrentes se entregam, deve ser atribuída a isso, que tendo o coração excessivamente apegado ao mundo, eles não provam as delícias de uma eternidade celestial, tal impaciência provém da mesma fonte. Daí aprendemos o verdadeiro uso desta doutrina. A que se deve a tamanha ansiedade quanto à nossa vida, ao fato de nada nos bastar e de nos atormentarmos continuamente, senão em razão de tolamente imaginarmos que permaneceremos neste mundo para sempre? Assim também, a que devemos atribuir essa inquietude e impaciência extremas, que fazem nosso coração desfalecer à espera da vinda de Cristo, senão por se encurvar à terra?
Aprendamos, pois, a não julgar segundo a compreensão da carne, mas a depender do juízo de Deus. E elevemos as nossas mentes pela fé até o seu trono celestial, do qual ele declara que esta vida terrena não é nada.
Tampouco Moisés simplesmente contrasta mil anos a um dia. Ele os contrapõe ao dia de ontem, que já passou. Porque tudo aquilo que ainda temos diante dos olhos exerce domínio sobre a nossa mente, mas somos menos afetados pela lembrança do já passou.
Quanto a palavra "vigília", sabe-se que os antigos costumavam dividir a noite em quatro vigílias – cada uma com a duração de três horas. Para enfatizar ainda mais fortemente quão insignificante é aos olhos de Deus aquilo que nos parece um período tão longo, acrescenta-se esta comparação: que mil anos a seus olhos em nada diferem de três horas da noite, nas quais as pessoas mal sabem se estão acordadas ou dormindo.
▪ ▪ ▪ ▪ ▪ ▪
Autoria ┌ João Calvino
Comentário ao Evangelho de Mateus [4.4]. Disponível em: https://www.ccel.org/study/Matt_4. Tradução ▪ Calvino21.
Comentários
Postar um comentário