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LANÇAMENTO: LIVRO "JOÃO CALVINO: QUEM DIZEM QUE SOU?"

 S ob empréstimo da pergunta de Jesus aos discípulos, foi publicada a décima obra da Coleção Calvino21 , organizada pelo historiador e teólogo J. A. Lucas Guimarães, sob o título: ▪ ▪ ▪  ▪ ▪  ▪ ▪  ▪ ▪   ┌   JOÃO CALVINO: “QUEM DIZEM QUE SOU?” ▪  Esboços de retratos calvinianos  ▪ ▪ ▪ ▪  ▪ ▪  ▪ Capa do livro "João Calvino: 'Quem dizem que sou?'" N ela temos a convicção de que a relação de seu contexto original com as identificações à pessoa de João Calvino desde sua morte, não é mera coincidência. Se lhe fosse oportuno um lance de existência atual, é possível que ele fizesse semelhante indagação, apesar de seu desinteresse por ela em sua existência. Desse modo, tem início o empenho de disponibilizar a verdade histórica da identidade e identificação de João Calvino: advogado, um dos principais líder da Reforma Protestante do século XVI, pastor na cidade de Genebra e escritor cristão, com vasta liter...

JOÃO CALVINO E PIEDADE CRISTÃ |2|: ESSENCIALMENTE

 ▪ ▪ ▪   Randal S. Lankheet

N a introdução de seu best-seller The Book of Virtue: A Treasury of Great Moral Stories [O Livro da Virtude: Um Tesouro de Grandes Histórias Morais], William Bennett escreve que "as crianças devem ter à sua disposição um estoque de exemplos que ilustrem o que consideramos como certo e errado, bom e mau."[1] Por meio dessas histórias, juntamente com exortações e preceitos explícitos, formaremos um melhor caráter moral em nossos filhos. Ao ler sua editada coleção de histórias, que inclui as fábulas de Esopo e as lições de moral medievais, segundo Bennett, a criança aprenderá coisas, como "honestidade é a melhor política" e "coisas boas acontecem a quem as espera."

Para João Calvino, porém, e ao cristão bíblico de hoje, o livro de Bennett ou outras formas de "educação moral" não resultarão em verdadeira piedade. Embora a moralidade civil e a piedade cristã possam parecer externamente semelhantes, por dentro são totalmente diferentes. Considere a grande diferença nos motivos deles. Enquanto a moralidade externa é frequentemente motivada pelo altruísmo ou por pressões sociais, o motivo e a fonte da pietas cristã é Jesus Cristo.

É no terceiro livro das Institutas da Religião Cristã [2] que Calvino aborda especificamente o tema da vida cristã. Ele inicia este livro com uma discussão sobre a obra do Espírito Santo. Calvino escreve que a "obra principal do Espírito Santo" é vivificar nossos corações naturais, mortos pelo pecado, e produzir em nós a fé salvadora em Jesus Cristo (III.1.4, p. 541). Além dessa obra inicial do Espírito na conversão de alguém, o Espírito continua a agir no cristão como o "vínculo pelo qual Cristo nos une eficazmente a Si mesmo" (III.1.1, p. 538). Por meio do Espírito Santo, tudo de Cristo e todos os benefícios de Sua obra consumada tornam-se nossos como cristãos.

Um dos principais benefícios obtidos por Cristo para nós é o benefício da justiça perfeita — a justiça de Deus, isto é: plena conformidade à Sua lei, obediência perfeita à Sua vontade; completa bondade em pensamento, palavra e ação. Essa justiça é gratuitamente creditada ao crente na justificação. A justificação, o crédito ou imputação da perfeita justiça de Cristo ao crente, como diz Calvino, é:

...o principal eixo em torno do qual se baseia a religião... Pois, a menos que você primeiro compreenda qual é a sua relação com Deus e a natureza do seu julgamento a seu respeito, você não tem um fundamento sobre o qual apoiar sua salvação, nem um sobre a qual construa a piedade [pietas] para com Deus (III.11.1, p. 726, grifo meu).

A menos que essa "dobradiça principal" da justificação seja corretamente fixada, a porta inteira ficará torta! Sem a "dobradiça principal" da justificação, caímos no mero moralismo, preocupados em simplesmente cultivar melhores virtudes em nós e nos outros. O ensinamento de Calvino sobre a piedade cristã evita isso, embora, devemos admitir, alguns calvinistas posteriores não o fizeram. Tenho um livro antigo na minha estante, intitulado Piety versus Moralism [Piedade Versus Moralismo]. O autor afirma que o "calvinismo antigo", que ensinava a depravação total, a regeneração milagrosa pelo Espírito e a imputação graciosa da justiça de Cristo na justificação, foi eventualmente substituído por um calvinismo mais novo, brando e benevolente. Os calvinistas mais recentes tornaram-se, por um lado, avivalistas e entusiastas do Espírito, e, por outro, liberais do evangelho social, que proclamavam com afinco:

…o ideal moral estabelecido pelo "Jesus Gentil": que diz as pessoas sobre a dignidade e o valor da alma humana, seu potencial semelhança com o Deus perfeitamente bom e seu destino final no céu. Eles exortavam as pessoas a crerem em "Deus, liberdade e imortalidade", a serem bons, a fazerem o bem e a viverem em paz com seus semelhantes. Eles pregavam essas coisas e esperavam que as pessoas acreditassem e as praticassem. Eles eram grandes otimistas.[3]

Para evitar esse otimismo de "fazer o bem", ao falamos hoje sobre piedade bíblica, devemos sempre começar pelo "eixo principal" da justificação, como Calvino a chama. Somente em Cristo, unidos a Ele pelo Espírito Santo, creditados com Sua perfeita justiça, podemos começar a trilhar pelo caminho da crescente piedade em nossas vidas cristãs.

Calvino tem muito a dizer no Livro Três de suas Institutas sobre o cultivo da piedade cristã. Nele, ele dedica três capítulos, quase trinta páginas, ao tópico "A Vida Cristã". Isso é mais páginas do que ele dedica ao tema eleição ou batismo infantil! Nesses capítulos, Calvino explica e aplica as palavras de Cristo: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga" (Mt. 16.24). Calvino não tem medo (ao contrário de alguns calvinistas hoje!) de falar repetidamente sobre seguir a Cristo como nosso exemplo e como nossa motivação para vivermos vidas cristãs piedosas.

Neste século XXI e entre os cristãos modernos, precisamos, especialmente, ouvir Calvino enfatizando o lugar da Igreja e seus sacramentos como "auxílios externos" à piedade cristã. Este é um ensinamento quase esquecido hoje. Ou, se você o ouve, é quase um sussurro. A pietas cristã, piedade, é bem mais fortalecida na vida do cristão ao pertencer à igreja visível e recebendo nela a Palavra e o Sacramento. Este é o tema principal das Institutas, Livro 4:

…é pela fé no evangelho que Cristo se torna nosso e somos participantes da salvação e da bem-aventurança eterna trazidas por Ele. Porém, visto que em nossa ignorância e morosidade... precisamos de auxílios externos para gerar e aumentar a fé dentro de nós e fazê-la avançar ao seu objetivo, Deus também providenciou esses auxílios para que possa sustentar nossa fraqueza (IV.1.1, p. 1011, grifo meu).

Compare esse ensinamento com o que você encontra na maioria das livrarias cristãs hoje em dia. De slogans em adesivos, de para-choque e camisetas aos versículos bíblicos impressos em canecas de café e chaveiros, que variedade de produtos que supostamente ajudam os cristãos a viverem vidas mais piedosas! Mas onde, nessas livrarias, você pode encontrar os livros, ou mesmo os adesivos de para-choque, que dizem às pessoas para irem à igreja no Dia do Senhor? Onde você encontrará os best-sellers que incentivam a frequência semanal à igreja para receber mais da graça de Deus através do sermão e da Ceia do Senhor?

Entre outras coisas, Calvino chama a Igreja de "Mãe dos crentes":

É em seu seio materno que Deus se alegra em reunir seus filhos, não apenas para que sejam nutridos por sua ajuda e ministério enquanto forem bebês e crianças, mas também para que sejam guiados por seus cuidados maternos até que amadureçam e, finalmente, alcancem a meta da fé. [...] Para aqueles a quem Deus é Pai, a igreja pode também ser Mãe (IV.1.1, p. 1016).

Anteriormente, citei Calvino dizendo que nós, cristãos, precisamos da Igreja por causa da nossa contínua "ignorância e morosidade". Ouvimos essas palavras? Mesmo sendo regenerados pelo Espírito Santo e professando fé em Cristo, ainda tendemos à letargia espiritual! Precisamos da Mãe Igreja para nos fazer crescer, para que possamos ser mais ativos, produtivos e maduros. Certamente, a maturidade espiritual requer o conhecimento da doutrina correta, e a Mãe Igreja proporciona isso. Mas o crescimento na piedade e na semelhança com Cristo também é uma parte essencial da maturidade espiritual:

…aqueles que se voltam ao cultivo da verdadeira piedade [pietas] é dito [na Bíblia] que terão seus nomes inscritos entre os cidadãos de Jerusalém... O favor paternal de Deus e o testemunho especial da vida espiritual estão limitados ao seu rebanho, de modo que é sempre desastroso afastar-se da igreja (IV.1.4, p. 1016, grifo meu).

O cultivo da verdadeira piedade ocorre na Igreja. E devemos ser lembrados de que Calvino não está se referindo aqui ao estudo bíblico do meio da semana, ao grupo de confraternização feminina ou à reunião de oração. A Igreja é a congregação reunida e adoradora, sob a supervisão dos presbíteros. Essas outras atividades — estudos bíblicos, grupos de comunhão, reuniões de oração — podem contribuir para o crescimento da piedade, mas os principais meios para crescer em piedade são encontrados na assembleia do povo de Deus, reunido à adoração no Dia do Senhor.

Não é este um lembrete necessário aos cristãos e igrejas atualmente, mesmo para nós que somos membros de congregações confessionalmente reformadas? Você quer crescer em piedade? Quer avançar em sua santificação? Não vá primeiro à livraria cristã. Não vá primeiro à escola cristã. Não entre primeiro em um momento de solitude pessoal. Vá primeiro à Igreja! Esteja presente ao culto do Dia do Senhor. Ouça a Palavra pregada e receba o Sacramento oferecido. Esse seria o conselho urgente de Calvino para que pudéssemos crescer em verdadeira piedade: "Os crentes não têm maior ajuda do que o culto público, pois por meio dele Deus ergue o seu próprio rebanho gradativamente" (IV.1.5, p. 1019).

Livros inteiros foram escritos sobre o ensino de Calvino acerca da pregação e dos sacramentos.[4] Mas considere, brevemente, a alta estima de Calvino pela pregação da Palavra como meio de crescimento à vida santa. Calvino diz: "Somente por sua Palavra, Deus santifica os templos para si mesmo os templos para uso legítimo" (IV.1.5, p. 1019). Ele está dizendo que Deus torna os cristãos mais santos e que somos cada vez mais formados como seus templos sagrados, quando ouvimos a Palavra pregada. De novo: "...o evangelho não é pregado apenas para ser ouvido por nós, mas para que possa reformar radicalmente nossos corações." E, ao ouvir esse evangelho pregado, somos conduzidos "a uma vida reta e santa."[5]

E quão valiosa é a Ceia do Senhor para o crescimento do crente em piedade e fortalecimento para a vida santa? Segundo Calvino, entre os vários benefícios de tomar o Sacramento está este maravilhoso benefício: a Ceia do Senhor é "uma espécie de exortação para nós, que pode, mais vigorosamente do que qualquer outro meio, vivificar e inspirar tanto à pureza quanto à santidade da vida" (IV.17.38, p. 1414). Mais do que qualquer outro meio externo (exceto ouvir a pregação da Palavra de Deus), a Ceia do Senhor nos anima e inspira à piedade. Não é de se admirar, então, que Calvino desejasse fervorosamente que cada igreja celebrasse a Ceia do Senhor semanalmente. Somos edificados ouvindo a Palavra pregada a cada Dia do Senhor. Também devemos ser edificados recebendo o Sacramento a cada Dia do Senhor.[6]

Nunca devemos esquecer, que o objetivo de nossa fé e o propósito de nossa salvação é que possamos levar vidas santas para a glória de Deus. Como diz o apóstolo Paulo: "Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente..." (Tt. 2.11-12).

Ou, como Calvino afirma com tanta veemência:

...ao homem que tem piedade nada lhe falta... A piedade é o princípio, o meio e o fim da vida cristã. E, onde ela é completa, nada falta... Portanto, a conclusão é que devemos nos concentrar exclusivamente na piedade..."[7]

Pela Palavra e pelo Espírito de Deus, por meio da audição de sermões e recebendo os sacramentos, que nós, calvinistas de hoje, mostramos essa mesma dedicação ao crescimento na piedade cristã, na pietas bíblica.

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Rev. Randal S. Lankheet  Pastor da Igreja Reformada Unida de Ontário, em Ontario, Califórnia (EUA). Artigo sob título original "Jonh Calvin and Christian Piety (2)". Disponível em: https://outlook.reformedfellowship.net/sermons/john-calvin-and-christian-piety-2/. Acesso em: 17/2/2026. Tradução de J. A. Lucas Guimarães.
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 Notas bibliográficas
[1] William J. Bennett ed.,The Book of Virtue: A Treasury of Great Moral Stories (New York: Simon & Schuster, 1993), p. 12. Este best-seller foi seguido, dois anos depois, por um "volume complementar", também editado por Bennett, The Moral Compass: Stories for Life's Journey (Nova York: Simon & Schuster, 1995).
[2] John Calvin, Institutes of the Christian Religion, editada por John T. McNeill e tradução de Ford Lewis Battles, em The Library of Christian Classics, vol. 20 (Philadelphia: The Westminster Press, 1960). Doravante, esta obra será citada entre parênteses, com o número da página da edição de McNeill, também entre parênteses.
[3] Joseph Haroutunian, Piety Versus Moralism: The Passing of the New England Theology (New York: Henry Holt and Company, 1932), p. 282.
[4] Veja, por exemplo, Ronald S. Wallace, Calvin's Doctrine of the Word and Sacrament (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1957) e seu Calvin's Doctrine of the Christian Life (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1959), especialmente a Parte 4, intitulada “Nurture and Discipline within the Church.”
[5] Comentário sobre 1 Pedro 1.23, em Calvin’s New Testament Commentaries, tradução de W. B. Johnston e editados por David W. Torrance e Thomas F. Torrance, vol. 12, (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1963), p. 252.
[6] Este é um debate acalorado entre alguns nas igrejas reformadas e presbiterianas. Nas Igrejas Reformadas Unidas, várias congregações em Classis, no sudoeste dos EUA, observam a Ceia do Senhor a cada Dia do Senhor.
[7] Comentário sobre 1ª Timóteo 4.8, à Segunda Epístola de Paulo, o Apóstolo, aos Coríntios e às Epístolas a Timóteo, Tito e Filemon, em Calvin’s New Testament Commentaries, editados por David W. Torrance e Thomas F. Torrance e tradução de T. A. Snail, vol. 10 (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1964), p. 244.

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