Destaques
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
JOÃO CALVINO E PIEDADE CRISTÃ |2|: ESSENCIALMENTE

▪ ▪ ▪ ┌ Randal S. Lankheet
┌N a introdução de seu best-seller The Book of Virtue: A Treasury of Great Moral Stories [O Livro da Virtude: Um Tesouro de Grandes Histórias Morais], William Bennett escreve que "as crianças devem ter à sua disposição um estoque de exemplos que ilustrem o que consideramos como certo e errado, bom e mau."[1] Por meio dessas histórias, juntamente com exortações e preceitos explícitos, formaremos um melhor caráter moral em nossos filhos. Ao ler sua editada coleção de histórias, que inclui as fábulas de Esopo e as lições de moral medievais, segundo Bennett, a criança aprenderá coisas, como "honestidade é a melhor política" e "coisas boas acontecem a quem as espera."
Para João Calvino, porém, e ao cristão bíblico de hoje, o livro de Bennett ou outras formas de "educação moral" não resultarão em verdadeira piedade. Embora a moralidade civil e a piedade cristã possam parecer externamente semelhantes, por dentro são totalmente diferentes. Considere a grande diferença nos motivos deles. Enquanto a moralidade externa é frequentemente motivada pelo altruísmo ou por pressões sociais, o motivo e a fonte da pietas cristã é Jesus Cristo.
É no terceiro livro das Institutas da Religião Cristã [2] que Calvino aborda especificamente o tema da vida cristã. Ele inicia este livro com uma discussão sobre a obra do Espírito Santo. Calvino escreve que a "obra principal do Espírito Santo" é vivificar nossos corações naturais, mortos pelo pecado, e produzir em nós a fé salvadora em Jesus Cristo (III.1.4, p. 541). Além dessa obra inicial do Espírito na conversão de alguém, o Espírito continua a agir no cristão como o "vínculo pelo qual Cristo nos une eficazmente a Si mesmo" (III.1.1, p. 538). Por meio do Espírito Santo, tudo de Cristo e todos os benefícios de Sua obra consumada tornam-se nossos como cristãos.
Um dos principais benefícios obtidos por Cristo para nós é o benefício da justiça perfeita — a justiça de Deus, isto é: plena conformidade à Sua lei, obediência perfeita à Sua vontade; completa bondade em pensamento, palavra e ação. Essa justiça é gratuitamente creditada ao crente na justificação. A justificação, o crédito ou imputação da perfeita justiça de Cristo ao crente, como diz Calvino, é:


A menos que essa "dobradiça principal" da justificação seja corretamente fixada, a porta inteira ficará torta! Sem a "dobradiça principal" da justificação, caímos no mero moralismo, preocupados em simplesmente cultivar melhores virtudes em nós e nos outros. O ensinamento de Calvino sobre a piedade cristã evita isso, embora, devemos admitir, alguns calvinistas posteriores não o fizeram. Tenho um livro antigo na minha estante, intitulado Piety versus Moralism [Piedade Versus Moralismo]. O autor afirma que o "calvinismo antigo", que ensinava a depravação total, a regeneração milagrosa pelo Espírito e a imputação graciosa da justiça de Cristo na justificação, foi eventualmente substituído por um calvinismo mais novo, brando e benevolente. Os calvinistas mais recentes tornaram-se, por um lado, avivalistas e entusiastas do Espírito, e, por outro, liberais do evangelho social, que proclamavam com afinco:


Para evitar esse otimismo de "fazer o bem", ao falamos hoje sobre piedade bíblica, devemos sempre começar pelo "eixo principal" da justificação, como Calvino a chama. Somente em Cristo, unidos a Ele pelo Espírito Santo, creditados com Sua perfeita justiça, podemos começar a trilhar pelo caminho da crescente piedade em nossas vidas cristãs.
Calvino tem muito a dizer no Livro Três de suas Institutas sobre o cultivo da piedade cristã. Nele, ele dedica três capítulos, quase trinta páginas, ao tópico "A Vida Cristã". Isso é mais páginas do que ele dedica ao tema eleição ou batismo infantil! Nesses capítulos, Calvino explica e aplica as palavras de Cristo: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga" (Mt. 16.24). Calvino não tem medo (ao contrário de alguns calvinistas hoje!) de falar repetidamente sobre seguir a Cristo como nosso exemplo e como nossa motivação para vivermos vidas cristãs piedosas.
Neste século XXI e entre os cristãos modernos, precisamos, especialmente, ouvir Calvino enfatizando o lugar da Igreja e seus sacramentos como "auxílios externos" à piedade cristã. Este é um ensinamento quase esquecido hoje. Ou, se você o ouve, é quase um sussurro. A pietas cristã, piedade, é bem mais fortalecida na vida do cristão ao pertencer à igreja visível e recebendo nela a Palavra e o Sacramento. Este é o tema principal das Institutas, Livro 4:


Compare esse ensinamento com o que você encontra na maioria das livrarias cristãs hoje em dia. De slogans em adesivos, de para-choque e camisetas aos versículos bíblicos impressos em canecas de café e chaveiros, que variedade de produtos que supostamente ajudam os cristãos a viverem vidas mais piedosas! Mas onde, nessas livrarias, você pode encontrar os livros, ou mesmo os adesivos de para-choque, que dizem às pessoas para irem à igreja no Dia do Senhor? Onde você encontrará os best-sellers que incentivam a frequência semanal à igreja para receber mais da graça de Deus através do sermão e da Ceia do Senhor?
Entre outras coisas, Calvino chama a Igreja de "Mãe dos crentes":


Anteriormente, citei Calvino dizendo que nós, cristãos, precisamos da Igreja por causa da nossa contínua "ignorância e morosidade". Ouvimos essas palavras? Mesmo sendo regenerados pelo Espírito Santo e professando fé em Cristo, ainda tendemos à letargia espiritual! Precisamos da Mãe Igreja para nos fazer crescer, para que possamos ser mais ativos, produtivos e maduros. Certamente, a maturidade espiritual requer o conhecimento da doutrina correta, e a Mãe Igreja proporciona isso. Mas o crescimento na piedade e na semelhança com Cristo também é uma parte essencial da maturidade espiritual:


O cultivo da verdadeira piedade ocorre na Igreja. E devemos ser lembrados de que Calvino não está se referindo aqui ao estudo bíblico do meio da semana, ao grupo de confraternização feminina ou à reunião de oração. A Igreja é a congregação reunida e adoradora, sob a supervisão dos presbíteros. Essas outras atividades — estudos bíblicos, grupos de comunhão, reuniões de oração — podem contribuir para o crescimento da piedade, mas os principais meios para crescer em piedade são encontrados na assembleia do povo de Deus, reunido à adoração no Dia do Senhor.
Não é este um lembrete necessário aos cristãos e igrejas atualmente, mesmo para nós que somos membros de congregações confessionalmente reformadas? Você quer crescer em piedade? Quer avançar em sua santificação? Não vá primeiro à livraria cristã. Não vá primeiro à escola cristã. Não entre primeiro em um momento de solitude pessoal. Vá primeiro à Igreja! Esteja presente ao culto do Dia do Senhor. Ouça a Palavra pregada e receba o Sacramento oferecido. Esse seria o conselho urgente de Calvino para que pudéssemos crescer em verdadeira piedade: "Os crentes não têm maior ajuda do que o culto público, pois por meio dele Deus ergue o seu próprio rebanho gradativamente" (IV.1.5, p. 1019).
Livros inteiros foram escritos sobre o ensino de Calvino acerca da pregação e dos sacramentos.[4] Mas considere, brevemente, a alta estima de Calvino pela pregação da Palavra como meio de crescimento à vida santa. Calvino diz: "Somente por sua Palavra, Deus santifica os templos para si mesmo os templos para uso legítimo" (IV.1.5, p. 1019). Ele está dizendo que Deus torna os cristãos mais santos e que somos cada vez mais formados como seus templos sagrados, quando ouvimos a Palavra pregada. De novo: "...o evangelho não é pregado apenas para ser ouvido por nós, mas para que possa reformar radicalmente nossos corações." E, ao ouvir esse evangelho pregado, somos conduzidos "a uma vida reta e santa."[5]
E quão valiosa é a Ceia do Senhor para o crescimento do crente em piedade e fortalecimento para a vida santa? Segundo Calvino, entre os vários benefícios de tomar o Sacramento está este maravilhoso benefício: a Ceia do Senhor é "uma espécie de exortação para nós, que pode, mais vigorosamente do que qualquer outro meio, vivificar e inspirar tanto à pureza quanto à santidade da vida" (IV.17.38, p. 1414). Mais do que qualquer outro meio externo (exceto ouvir a pregação da Palavra de Deus), a Ceia do Senhor nos anima e inspira à piedade. Não é de se admirar, então, que Calvino desejasse fervorosamente que cada igreja celebrasse a Ceia do Senhor semanalmente. Somos edificados ouvindo a Palavra pregada a cada Dia do Senhor. Também devemos ser edificados recebendo o Sacramento a cada Dia do Senhor.[6]
Nunca devemos esquecer, que o objetivo de nossa fé e o propósito de nossa salvação é que possamos levar vidas santas para a glória de Deus. Como diz o apóstolo Paulo: "Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente..." (Tt. 2.11-12).
Ou, como Calvino afirma com tanta veemência:


Pela Palavra e pelo Espírito de Deus, por meio da audição de sermões e recebendo os sacramentos, que nós, calvinistas de hoje, mostramos essa mesma dedicação ao crescimento na piedade cristã, na pietas bíblica.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Postagens mais visitadas
CALVINO E O POLÊMICO CASO SERVETO (1553)
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
A MORTE DE JOÃO CALVINO
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário