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JOÃO CALVINO: O "DAVI DA REFORMA PROTESTANTE"

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♥┌ Introdução
Sob nascimento em data de 10/07/1509 e naturalidade em Noyon, cidade na Picardia, província do Reino da França, a responder por Jehan Chauvin, nome de batismo, ao qual latinizou o próprio sobrenome, na época da Universidade, a escrevê-lo na grafia latina: Calvinus. Por transliteração, dela deu-se a conhecer em outras línguas, a exemplo, dentre outras: em inglês, Calvin, e em português, Calvino.

À expressiva notoriedade de seu curriculum vitae, dada à excelência de sua obra no século XVI, foi-lhe acrescido o reconhecimento da contribuição de suas ideias à formação das estruturas que moldaram o mundo moderno. Ainda que sob inumeráveis empreendimentos de esforços titânicos a nem mesmo se ter vestígio de seu nome no percurso da História do Cristianismo, tais intentos, porém, mostraram-se ineficazes ao banimento do reformador da memória histórica e do vínculo de sua pessoa aos principais fundamentos da sociedade modernidade. Sem dúvida, devido ao fato de João Calvino ser significativamente memorável “homem-época” (não repleto de eventos, mas que gera acontecimentos), expressão do filósofo americano Sidney Hook (1902-1989), no livro The hero in History (1943), pois:
O homem que faz eventos, por outro lado, encontra uma bifurcação na estrada histórica, mas ele também ajuda, por assim dizer, a criá-la. Ele aumenta as chances de sucesso da alternativa que escolhe em virtude das qualidades extraordinárias que ele aplica para realizá-la.
Tem-se, portanto, o perfil do “herói da Reforma” a biografar, a seguir:
┐ Reformador protestante, que se fez crucial ao progresso da Reforma Protestante do século XVI;
┐ Teólogo cristão, que primeiro sistematizou a doutrina da fé protestante à compreensão, com vista a sua aceitação e prática;
┐ Idealizador do sistema teológico mundialmente conhecimento e praticado, sob reconhecimento e referência de seu nome, a saber: o Calvinismo;
┐ Escritor, que se destaca como um dos maiores comentarista bíblico da História da Igreja cristã;
┐ Filantropo, revelado ao fazer de Genebra uma cidade-refúgio: abrigo de refugiados, advindos de perseguição religiosa em sua terra natal;
┐ Economista, idealizador da prática de empréstimo à juros como troca de mercadoria, visando a oportunidade de empreendimento;
┐ Educador, fundador da Universidade de Genebra, atualmente uma das melhores do mundo, e nela exercia docência;
┐ Linguista, com contribuição na forma e estilo do francês literário.
1┌ Calvino na infância: esboço visionário do pai
Os pais de João Calvino, Gérard Chauvin e Jeanne Le Franc eram assistidos de boa condição financeira. Ainda que não figurasse como família nobre de Noyon, nela havia ascendido de nível social. Nessa condição, é de se esperar, como comumente ocorria aos herdeiros masculinos de família ascendida socialmente, mas sem herança ou posse como garantia à sua futura posição na sociedade, herdarem o ofício do seu mantenedor. Desde a antiguidade, o ofício do mantenedor da família estava vinculado à sua identidade (referência pessoal) e à garantia de reconhecimento social (credibilidade técnica). Ademais, o status social ocorria em nível do domínio da técnica do ofício e não pelo fator econômico envolvido, lucro obtido pela sua prática, principalmente em relação à classe popular. Mesmo com ganho apenas à subsistência da família, o reconhecimento social do domínio técnico no ofício, que garantia a satisfação daqueles que encomendavam o serviço, era suficiente à construção de um legado familiar no ofício: manutenção da família, fidelidade da clientela, status social de boa pessoa e do ofício como herança aos herdeiros. Numa época em que a maioria das cidades dificilmente contava com população com mais de dez mil habitantes, uma família com legado em um ofício poderia assumir na cidade o nível de exclusividade, domínio ou preferência, principalmente, quando os herdeiros se casavam e passavam a exercer o ofício, em seu nome, ao lado do pai ou com referência a ele.
No entanto, apesar de herdeiro de um ofício de legado familiar reconhecido na cidade, Gérard Chauvin não exerceu o ofício de serralheiro do pai, o avô de Calvino, como fizeram os seus dois irmãos: Richard, que se instalou em Paris no exercício do ofício e Jacques, também serralheiro. Ele serviu como representante do bispado de Noyon: da catedral e de seu bispo, Charles de Hangest (1461-1528). Também fez carreira como funcionário administrativo de Noyon. Quanto a mãe de Calvino, ela era filha de um hoteleiro da cidade de Cambrai, na França. O casal teve seis filhos, dentre os quais dois não alcançaram à idade adulta. Com o nascimento de Calvino, o casal tinha seu quarto filho. Ainda em tenra idade, apenas com seis anos, Calvino fica órfão de mãe, falecida em decorrência de causas desconhecidas, em 1515.
♥┌ Calvino e o marco dos 13 anos
Ernest Renan (1823-1892), filosofo e historiador francês, no primeiro volume da coleção A História do Povo de Israel (1887), observou: “O período mais importante na vida dos grandes homens é a sua juventude, pois é nessa fase que o seu futuro é, por assim dizer, traçado por trás de um véu.” De certo, nada mais verdade do que essa observação à pessoa de João Calvino. Um príncipe somente à sua subida ao trono, seria preciso biografar, para eternizar os seus feitos do trono ao Reino. Antes, ao se destinar naturalmente a herdá-lo, não era preciso justificar com feitos anteriores sua dignidade. Era o filho do rei e, portanto, agora o rei. O mesmo ocorria com súditos e plebeus. Quem era Calvino ao completar 13 anos? A vizinhança responderia, com certo orgulho, inveja ou desdém, que era o filho que Gérard Chauvin encaminhou ao ofício do sacerdócio, sob apadrinhamento do bispo local. Se também chegasse ao bispado, estaria tudo explicado, dado ao benefício do bispado local, que se comportava como protetor da família Calvino.

Isso considerado, o que se sabe é que para Calvino, até seus 13 anos, Noyon, uma importante cidade episcopal, onde seu pai serviu como representante da catedral e de seu bispo, foi-lhe referência. Exposto aos costumes, gostos e necessidade de projeção profissional pela formação educacional, anseio comum aos aristocráticos (burgueses), cresce à sombra da Catedral, como relata no prefácio do Comentário aos Salmos, “obstinadamente devotado às superstições do papado.” Muito cedo foi direcionado à carreira eclesiástica e, também, . Próximo à família do bispo e por ele protegido, aos 11 anos, foi instalado, em 29 de maio de 1521, como beneficiário da capela Notre-Dame de la Gésine, na entrada do deambulatório, da Catedral de Notre-Dame de Noyon. O benefício eclesiástico garantiu-lhe a renda que possibilitou o financiamento de seus estudos, desde sua matrícula no Collège des Capettes em Noyon, onde obteve aprendizado básico em latim.
De certo, desse pouco que se sabe de Calvino, da infância aos seus 25 anos, é possível traçar, dessa brevíssima cronologia, o seu perfil psicossocial, que se apresenta como parte de sua identidade conhecida. Disso, sabe-se que ele prezava a solidão e a se manter reservado de publicidade e envolvimento permanente e numeroso de contato pessoal, tendo forte inclinação em se reservar apenas aos estudos. A importunação por amigos ou familiares, quando em dedicação aos estudos, caso não se justificasse como superior à importância do seu aprendizado, poderia produzir mau-humor e irritabilidade nele, fazendo-o evitar no afã de não prolongar sua atenção. Afeito a se revelar como um amigo exemplar e que em vida teve muitos: fato que as mais de quatro mil correspondências preservadas à posteridade não permitem negar. Assim, portanto, ainda que, como sugerem alguns biógrafos, fosse de personalidade excessivamente irascível ou, como biografa o historiador francês Bernard Cottret, em seu livro intitulado Calvin: a biography (2000): “...de uma severidade clássica, que se identifica pela clareza do estilo.” Se de fato a rispidez era-lhe fortemente característico, nada se verifica de singular ou maculadora à sua pessoa. O homem em transição da medievalidade à modernidade encontrava-se em tempos extremos, o que tornava a rispidez comum e necessária. O exercício de autoridade, assim como a imposição do respeito, utilizava da rispidez para prevalecer. A própria retórica da época apoiava-se nessa característica, pela qual a desmoralização do adversário e defesa da verdade eram praticados com a mesma intensidade. Assim, tudo parecia requerer decisão, grito de ordem e xingamento. Entretanto, o característico em questão, não condiz com o perfil calviniano verificado em família, correspondências, obras e pastorado. Não é possível comprovar que Calvino tenha sido induzido a momentâneos atos indevidos ou injustos motivados por aparentes surtos de ira. Ao contrário, no percorrer de sua vida, é possível constata, com destaque à sensatez de sua postura discente em meio aos comuns devaneios e desvios de conduta da juventude acadêmica, um homem dado ao domínio próprio e de espírito disciplinado. A rede de amizades construída e mantida em manifesta cordialidade por ele, apresenta-se como extraordinária e revestida de singularidade no século XVI. Calvino foi educado pela solidão da leitura e humanizado pela escrita às amizades, visita aos pobres, presença dos fiéis e convívio familiar.
♥┌ João Calvino: de acadêmico à refugiado
Além do significativo benefício eclesiástico, Calvino recebeu ajuda da influente família dos Montmors. De certo, isso possibilitou sua residência em Paris entre os anos de 1523 e 1528, intentando preparar-se à uma carreira eclesiástica. Nela, foi onde obteve acesso aos fundamentos humanistas e o convívio com as ideias e inovações que dinamizavam os discursos acadêmicos da época e atraiam estudantes. Com ingresso inicial, aos 14 anos, no Collège de la Marche parisiense, nessa escola aprendeu latim e humanidades, sob a magna docência do professor Mathurin Cordier (1479-1564): destacado pedagogo francês, que aderiu a Reforma e passou a viveu em Genebra, sob convite de Calvino. Admitido, depois, no Collège Montaigu, conhecido pela rigidez, castigo (sovas) e má comida, passou ao estudo de Teologia. Inegavelmente, um período nessa escola era vivência de renúncia ascética. No entanto, além de João Calvino, ela havia ensinado mais dois grandes vultos à história da humanidade: Inácio de Loyola (1491-1556), fundador da Companhia de Jesus (a ordem dos jesuítas) e Erasmo de Roterdã (1466-1536), um dos grandes filósofos da época e editor da edição crítica do Novo Testamento Grego, usada no período da Reforma.
Ao obter sua licenciatura em Letras, sob consideração do pai que “ciência das leis torna normalmente ricos aqueles que se debatem com ela”, ou seja, a carreira de advogado seria para ele mais lucrativa do que o sacerdócio eclesiástico, foi encaminhado, aos 19 anos, ao ingresso na Faculdade de Direito em Orléans, cujo título de mais conceituada em Direito da França, tornou a cidade conhecida. Durante a sua frequência à Universidade de Bourges em 1529, para estudos em direito italiano com o renomado professor Andrea Alciato (1492-1550), sob instrução do erudito luterano Melchior Wolmar, realizou estudo em grego e hebraico, que se fazia necessário ao tratamento crítico do Novo Testamento Grego.
Com a morte do pai, Gerard Cauvin, em 1531, Calvino vê-se livre para se dedicar à sua preferência pela literatura clássica e retorna a Paris, sem abandono, porém, do estudo da jurisprudência, apenas com menos afinco a ele. No início de 1532, sob a coordenação de Pierre de l’Étoile, conceituado como “rei da jurisprudência”, obteve seu bacharelado em Direito. Como resultado de sua tese, Calvino publicou seu primeiro livro: o Comentário a “De Clementia” de Sêneca (1532).
Quando o novo reitor da Universidade de Paris, o humanista Nicholas Cop (1501-1540), inclinado às ideias de Lutero, proferiu preleção de início de ano com teor luterano em 1/11/1533, por amizade a ele, Calvino viu-se vinculado a coautoria do discurso. A reação dos teólogos de Sorbonne ocorreu em nível ação penal extrema. Dada à circunstância, ele não completaria os dias de 1533 em estudos em Paris. Foi necessário que ambos fugissem da cidade para pouparem suas vidas da prisão ou atentado contra elas. Com a opção de seguir para Basileia, destino de Nicholas Cop, ele optou por se refugiar na casa do amigo Louis du Tillet, em Angoulême, até abril de 1534. A família du Tillet detinha o senhorio de La Bussière. O irmão mais velho do amigo de Calvino, Jean du Tillet, além de herdar o senhorio do pai, foi arquivista e historiador francês, cuja obra mais famosa intitula-se Recueil des rois de France.
Permanecendo até abril de 1534 com a família du Tillet, segue caminho para Nérac (França), onde encontrou Jacques Lefèvre d’Étaples (1455-1536), teólogo humanista francês e místico de vida exemplar, que dentre as suas obras publicadas, intentando torná-la acessível, destaca-se a tradução da edição latina da Bíblia, a Vulgata, ao francês (1530). Ele teve forte influência sobre os teólogos reformadores. Lefèvre d’Étaples optou por permanecer católico, mesmo idealizando uma reforma da Igreja in capite et in membris [na cabeça e nos membros].

Apenas de passagem em Nérac, logo se dirigiu a Noyon, sua cidade natal, aparentemente com um propósito: renunciar ao benefício eclesiástico, que lhe assistia desde os 12 anos. Efetivada a renúncia em maio de 1534, sem intenção de permanência na cidade, retorna a Paris. De certo, considerado o pouco tempo do incidente que motivou sua forçada partida, Calvino devia ter ciência que nada havia evoluído do episódio contra ele, que o colocasse sob o risco de sofrer alguma sanção penal na tentativa de retorno.
Sobre a conversão de João Calvino ao protestantismo, a fuga de Paris, no episódio do discurso do reitor, revela que ele já assume o habitus protestante. A renúncia ao benefício eclesiástico é outro marco à identidade e identificação calvinianas ao protestantismo. Os biógrafos consideram impossível determinar o ano exato, mas com ocorrência entre 1532-1533. No prefácio ao comentário dos Salmos, escrito em 1557, Calvino descreve sua conversão, dada a “tão obstinadamente devotado às superstições do papado”, como tem sido necessário que Deus “por um ato súbito de conversão”, o subjugasse e conduzisse sua mente a uma disposição suscetível”, de forma que:
Tendo assim recebido alguma experiência e conhecimento da verdadeira piedade, imediatamente me senti inflamado de um desejo tão intenso de progredir nesse novo caminho que, embora não tivesse abandonado totalmente os outros estudos, me ocupei deles com menos ardor. Fiquei totalmente aturdido ao descobrir que antes de haver-se esvaído um ano, todos quantos nutriam algum desejo por uma doutrina mais pura vinham constantemente a mim com o intuito de aprender, embora eu mesmo não passasse ainda de mero neófito e principiante.
Ao retornar a Paris, aos 24 anos, Calvino escreveu o seu segundo livro, que figurou como sua obra inaugural sobre temas religiosos, a se somar a sua numerosa produção nesse gênero literário até sua morte. Mais conhecido pela palavra grega do título Psychopannychia [A vigília da alma]. O título completo, porém, expõe a intencionalidade autoral, de forma a produzir interesse ao leitor ou orientá-lo na leitura, a saber: Psychopannychia – tratado no qual se prova que as almas se mantêm em alerta e vivas, após deixaram seus corpos, ao contrário do erro que alguns ignorantes sustentam sobre elas dormirem até ao último Dia. É uma abordagem teológica a favor da imortalidade da alma contra a crença anabatista da mortalidade dela.
No entanto, o ano de 1534 haveria de se inscrever na história como intensamente longo, de forma a ainda comportar outro marco em seus dias: o Affair of the Placards [Caso dos cartazes]. Na noite de 17/10/1534, o pastor protestante francês Antonie Marcout protagonizou uma intensa panfletagem (afixação de cartazes), em toda Paris e cidade próximas, incluindo a porta do quarto do Rei Francisco I, com forte crítica à celebração da Missa católica, sob o título: Artigos verídicos sobre os abusos horríveis, insuportáveis e generalizados da Missa Papal, que está em oposição direta à Ceia do Senhor, presidida por nosso Senhor, o único mediador e salvador, Jesus Cristo. A reação católica culminou com uma repressão massiva aos adeptos protestantes e organização, envolvendo todas as paróquias, de uma procissão expiatória pelas ruas, da qual até o rei participou, cujo saldo foi a morte de seis protestantes queimados na fogueira. O Rei Francisco I, que se portava em postura de tolerância aos protestantes, com o incidente dos cartazes, considerou que devia preservar seu reino contra a heresia protestante sob o suporte de uma política de repressão: perseguição, prisão, tribunal e condenação à morte em Paris e nas províncias. Paris transformou-se em lugar insustentável, até mesmo, apenas, se suspeito de simpatizar com a causa protestante. Com a ordenança do Rei à perseguição aos heréticos, não havia outra opção aos protestantes franceses senão fugirem dela.
Em janeiro de 1535, Calvino encaminha-se à cidade de Basileia, onde permaneceu até março do próximo ano. Nesse mesmo mês de 1536, ele publicou a primeira edição de Institutio Christianae Religionis [Institutas da Religião Cristã]. Escrita em latim, contendo no prefácio a dedicatória da obra à pessoa do Rei Francisco I, no qual apresenta a sua defesa em prol do reconhecimento da fé protestante como verdadeira expressão da ortodoxia cristã e não como heresia condenável.
♥┌ Calvino em Genebra: impasse e exilio
De Basileia, acompanhado pelo amigo Louis du Tillet, Calvino dirigisse à Ferrara. Pode-se considerar que a motivação dessa viagem era a divulgação das ideias contidas na Institutas, recém-lançada. No entanto, ele não obteve sucesso no empreendimento. Ao contrário do esperando, Calvino teve que abreviar sua permanência na cidade apenas a abril, devido a postura reacionária da população às ideias protestantes pontuadas por ele. Toma rumo de viagem para Paris, dado ao momento de suspensão da comoção em prol da perseguição aos protestantes, onde permanece até julho de 1536. Ao prevê que viveria ali como os judeus no Egito, mas desejava estar aonde fosse mais simpático à Reforma, Calvino deixa o solo da França, ao qual não mais retorna, e se volta aos territórios dos cantões suíços.
Portanto, em julho de 1536, João Calvino empreende viagem, acompanhado de seu irmão Antoine e sua irmã Marie, à Estrasburgo. Para evitar o perigo de acesso à região de confronto das tropas em guerra de Francisco I e Carlos V, mesmo sendo o trajeto mais curto ao destino pretendido, ele tomou rumo através de desvio ao Sul. Antes, porém, de chegada ao destino traçado, o desvio os encaminhou à Genebra, que apesar de ter estado, politicamente, sob vassalagem da casa de Saboia, desde o final do século XIII, comportava-se como uma cidade-Estado: uma república emancipada em sua municipalidade.
Na época, Genebra encontra-se em complexo estágio de mudanças políticas e religiosas necessárias a afirmação definitiva de sua emancipação. Em 1526, com a decisão da cidade pela união com os cantões suíços de Berna e Friburgo, ocorre o fim do direito de vassalagem da casa de Saboia sobre Genebra. A estrutura do governo genebrino favoreceu a manifestação de aspectos próprios da Reforma, mas, ainda, sem influência dela. Em 1532, ocorreram destruições de imagens religiosas, consideradas como idolatria papista, e a realização do primeiro culto protestante na cidade, no ano seguinte. Em 1536, antes de Calvino, aos 26 anos, pernoitar nela, ocorreu a adoção oficial da Reforma pela cidade de Genebra. Em junho do mesmo ano, por decisão do Conselho, foram abolidos todos os feriados religiosos, excetos os domingos. Com a adoção oficial da Reforma por Genebra, os clérigos da Igreja Católica foram intimados a abandonar a celebração da Missa conforme o cerimonial católico, com alegação de prática de idolatria.
De fato, o ano de 1536, é marco da adoção oficial da Reforma por Genebra e, também, da chegada de Calvino na cidade. Sem pretensão de permanecer nela mais do que pernoite, apenas o suficiente para descanso, antes de continuar a viagem; contudo, o bastante à ciência de sua estadia em Genebra por Guilherme Farel (1489-1565). Ao encontro com Farel, que o procurou imediatamente à informação de sua presença na cidade, Calvino foi convidado por ele a permanecer nela e o ajudar na sua causa pela igreja. Sob alegação de recusa, que pretendia apenas completar a viagem e procurar viver na tranquilidade dos estudos, Farel lançou uma forte imprecação contra ele. Dada à urgente necessidade de ajuda à igreja, mas preferir tão egoísta projeto pessoal, que ele realizasse sob a maldição de Deus. Calvino, diante da imprecação de Farel, deixou de lado sua relutância e concordou em ficar, pois, como escreveu, posteriormente, sobre o ocorrido: “senti como se Deus no céu tivesse colocado a sua poderosa mão sobre mim para me barrar o caminho.” Ele permaneceria por 18 meses ao lado de Farel em intenso trabalho de organização da expressão doutrinária, litúrgica e disciplinar da igreja com forte impacto na sociedade genebrina. A maioria das decisões redundavam em excomunhão e até expulsão da cidade àqueles que não as cumprissem. No século XVI, a excomunhão da Ceia (comunhão) gerava imediato estigma, de forma a privar o excomungado de suas relações sociais. O dono de uma loja, que fosse excomungado, por exemplo, certamente não teria a visita da clientela ao seu comércio durante o período de sua excomunhão. Logo, diante de fixação de datas para cumprimento de execução penal à desobediência, a comoção evolui para protesto à audição das autoridades de que um estrangeiro decidir sobre a excomunhão e expulsão de habitantes com naturalidade genebrina era uma provocação inaceitável. Em resposta, as autoridades começam a limitar o alcance das decisões de Calvino e Farel, principalmente com a eleição de quatro inimigos de Calvino ao Conselho da cidade. Em março de 1538, eles formam maioria e decidem proibir Farel e Calvino de participação em assuntos não religiosos referente a cidade. Quando eles mantiveram a regularidade da celebração da comunhão, negando-se seguir a tradição de Berna, conforme decisão do Conselho, foram proibidos do exercício dos serviços religiosos. Por fim, no domingo posterior à decisão (21/4/1538), com a celebração do Culto de Ceia por Farel e Calvino, respectivamente nas igrejas de Saint-Gervais e de Saint-Pierre, foram intimados pelas autoridades a deixarem a cidade no prazo de três dias.
Convém, salientar que Genebra possuía emancipação política e se caracterizava como uma república, cuja administração era exercida por um Conselho, composto de autoridades eleitas, com a finalidade de propor a ordem jurídica e a manter em vigência, defender a cidade de motim contra o seu devido governo ordenado e zelar pelo bem e direitos dos burgueses (cidadãos) como magistrados. Portanto, muitas leis, como por exemplo, o exílio e a pena de morte em fogueira já seguiam curso como parte da cultura jurídica genebrina, antes de João Calvino pernoitar na cidade e, posteriormente, sendo ele mesmo objeto de sentença penal: proferida e executada sua expulsão de Genebra.
♥┌ De Calvino exilado a pastor de refugiados

Finalmente, o exílio imposto pelas autoridades de Genebra a Calvino o coloca rumo ao seu destino de viagem inicial, quando deixou Paris: a cidade de Estrasburgo. Apesar da cidade fazer parte da região de língua alemã, próximo à fronteira com a França havia se organizado um povoamento de exilados franceses. Então, quem se tornou o protetor de Calvino e o convidou ao pastorado de uma igreja de protestantes franceses foi o reformador protestante Martin Bucer (1491-1551). Ele também havia se refugiou em Estrasburgo, dada a excomunhão pelo clero romano, em resposta a sua tentativa de reformar a igreja de Wissembourg, foi forçado a fugir de lá. Nela refugiado, Bucer soma-se aos seus três principais reformadores: Matthäus Zell (1478–1541), Wolfgang Capito (1478–1541) e Caspar Hédio (1494-1552).
Quanto a João Calvino, viu-se sob realização de seu desenho: tranquilidade para se dedicar aos estudos e pastor de uma igreja pronta ao ensino da fé reformada e carente de pastoreio, como ovelha que se viu desgarrada e órfão de sua terra natal, devido a fuga pela perseguição a sua profissão de fé protestante. Lembremos que 1538 é o ano em que Calvino, expulso de Genebra, chega a Estrasburgo. Nela, ele residiria, apenas, quase três anos e meio. No entanto, é nesse período que Calvino se torna verdadeiramente Calvino: homem de um livro, expositor da Palavra, defensor da ortodoxia cristã e expressão da fé e da ordem da igreja reformada. Nessa condição, entrega-se a uma intensa atividade literária, da qual seu sistema de pensamento teológico e doutrinária assume marcante originalidade ao escrever a versão ampliada das Institutas, o triplo de conteúdo em relação a primeira. Desse período, dentre outras obras, destacam-se seu Comentário à carta de Paulo aos Romanos, pela importância de sua exposição da doutrina da justificação pela fé, que era o fundamento do movimento protestante, e o Tratado sobre a Ceia do Senhor, que requeria urgente posicionamento balizador, diante das querelas envolvendo essa doutrina: da parte de protestantes contra protestantes e de protestantes contra católicos.
É dessa época, que a pena de Calvino, mesmo a distância, fere de morte a última e mais perigosa tentativa de condução de Genebra de volta ao catolicismo papal. No intervalo entre 1538 e 1541, do exílio à volta de Calvino, Genebra enfrentou dificuldades, sob liderança de pastores de menor desenvoltura que seus antecessores. Isso possibilitou ao cardeal italiano Jacques Sadoleto (1477-1547), bispo de Carpentras, aproveitar-se da situação e orquestrar uma investida de convencimento às autoridades e ao povo da cidade, endereçando-os uma carta, datada de 15/4/1539, “para trazê-los de volta à obediência ao Pontífice Romano.” O cardeal era porta-voz do Papa, reconhecido pela maestria nas letras e habilidade em persuadir aos protestantes através do trato conciliatório. A carta enviada à Genebra aparentava dada do melhor da genialidade escritora, sob tamanho empenho do remetente, como se fosse entregar a cidade como troféu ao Papa. Quanto aos destinatários, ocorridos mais de quatro meses da entrega da correspondência em mãos, mostravam-se como diante de um insuperável impasse: não dispor de uma resposta que justificasse a negativa à convocação do cardeal. A carta havia sido escrita com a intenção de não comportar contra-argumento. O Papa colocava seu “Golias” às portas de Genebra. Nesse tempo, soma-se a maestria da escrita à pressão da crescente popularidade da correspondência que circulava sob publicação. No jogo de interesses, manipulações e bajulações tem-se um princípio simples como poderoso ditame: se é falácia, que seja denunciado o engano; mas se é verdade, negá-la é colocar a alma de si mesmo, dos seus e dos outros em terrível danação infernal.

O que segue evidencia que as autoridades de Genebra foram expostas a singular capacidade intelectual, literária e teológica de João Calvino, a ponto de reconhecê-la e de estabelecer vínculo de dependência até sua morte. Elas decidem confiá-lo o convite de elaboração da resposta ao cardeal católico, em nome do permanente compromisso de Genebra com a Reforma. A prontidão de Calvino em entendê-los é prova de sua decisão de jamais se limitar em defesa da causa protestante. Ele era o advogado da igreja protestante! Calvino escreveu a resposta a Sadoleto em seis dias, datada de 1º/9/1539, em cuja abertura reconhece a maestria do oponente, mas também sua “obrigação de entrar neste combate, por uma grande necessidade”, pois:
...quão odioso seria se os sábios concluíssem que somente por enfado e desgosto, sem ter outra justa razão, tivesse dirigido minha pena contra aquele a quem (não sem razão) se estima, por suas qualidades e virtudes, digno de amor, louvor e apreço. Por outro lado, espero que depois de haver exposto o motivo e a razão desta empresa, não somente esteja isento e seja absolvido de todo o crime, como também, a meu ver, não haja ninguém que possa julgar que a causa por mim patrocinada pudesse ficar sem defesa, sem incorrer em grande covardia e desprezo ao meu ministério.
O “gigante do Papa”, que assistiu ao silêncio de Genebra por quatro meses e meio, viu-se confrontado pelas letras da pena do “Davi da Reforma”, que o fez sucumbir e dado ao desdém dos leitores. A analogia não é casual ao apenas alegórica. No prefácio ao comentário dos Salmos, Calvino relata que encontra consolo no exemplo de fé, paciência, fervor, zelo e integridade de Davi, ao compreender suas queixas e aflições, devido ao que a igreja teve que suportar de muitos membros, como ele também vivenciou no ministério. De certo, conclui:
...tendo sido de imenso benefício poder eu olhar para ele como num espelho, tanto nos primórdios de minha vocação como ao longo do curso de minha função, tanto que eu sei com toda certeza de que todos os inúmeros exemplos de sofrimento por que passou o rei Davi me foram exibidos por Deus como um exemplo a ser imitado.
A investida de Sadoleto transformou-se em extraordinária oportunidade para Calvino. Pode-se afirmar que foi uma das suas primeiras obras a espalhar seu nome como reformador por toda a Europa. Martinho Lutero, o pai da Reforma, ao conclui a leitura da carta, no uso de seu estilo alegórico inconfundível, expressou seu elogio: “Eis aqui uma obra que possui mãos e pés. Alegro-me em saber que Deus levanta homens como este.”
João Calvino retornou a Genebra em 1541 a convite dos magistrados da cidade, que haviam pedido para ele deixar a cidade três anos antes devido a conflitos entre os pastores e os líderes governamentais sobre a direção da igreja e a supervisão da disciplina eclesiástica. e recebendo uma convocação veemente do Cardeal Jacob Sadoleto para retornar ao catolicismo tradicional.
Mudou-se, então, para Genebra (Suíça) em 1536, , em onde se dedicou à pregação e à escrita; uma correspondência volumosa com outros pensadores e reformadores europeus é conhecida, com Calvino tendo uma forte ascendência política, educacional e eclesiástica sobre a população de Genebra. Sua maior obra, Institutio Religionis Christianae [Institutas da Religião Cristã] apresenta sua visão de Cristo como profeta, pastor e rei, do Espírito Santo como o inspirador da fé e, acima de tudo, da Bíblia como a autoridade final. Sua convicção de que a doutrina cristã deve ser extraída pelo crente através da leitura direta da Bíblia, sem a mediação da Igreja, foi o que suscitou mais controvérsia e o que gerou a cisão da Igreja Romana. Além de adotar o legado de Lutero e negar com ele a eficácia dos sacramentos, Calvino rejeitou a existência do purgatório, o valor da Missa e das indulgências, e negou a presença de Cristo na Eucaristia. Controvérsia ainda maior foi gerada por sua doutrina da predestinação, segundo a qual a salvação dependia apenas da piedade soberana de Deus – exemplificada no perdão de Cristo – e nunca da vontade humana. Enquanto Tomás de Aquino havia ensinado que o teólogo deve começar o caminho do conhecimento com Deus e só então considerar as criaturas na medida em que se relacionam com a divindade, Calvino rompe com esse esquema, considerando que o conhecimento de Deus está relacionado ao conhecimento de nós mesmos e vice-versa. Era um homem pertencente ao indescritível clube dos vencedores, que combinava maravilhosamente idealismo com práxis; embora fosse um humanista do Renascimento, de tal movimento extraiu as mais úteis e práticas, por isso tinha soluções imediatas para as questões cotidianas dos paroquianos, de modo que não se pode afirmar que ele era um teólogo acadêmico, uma vez que escreveu normas para a Igreja, para o crente, de tal forma que ele seria permanentemente instruído e mantido no “caminho dos justos.”
O pecado, para Calvino, não era mais ignorância (cegueira que Calvino chamou) de Deus, mas uma consequência disso. O pecado se tornaria uma oposição ativa a Deus, uma recusa em reconhecer suas exigências de adoração e obediência, vindo de um amor-próprio desmedido de acordo com Calvino.
Pensam e até o acusam Calvino de conduzir a doutrina cristã da predestinação, ao colocar sob ênfase, a figurar sob aspectos extremos e radicais, quanto à crença e à conduta. Primeiro, deve-se constar que João Calvino não enfatizou a doutrina da predestinação em preterência às demais. Quando na literatura ocorre de uma ideia cair em esquecimento, imediatamente à época da publicação, o escritor que a resgatava séculos depois em obra literária, tinha a ênfase dada à leitura como novidade autoral pelos leitores de sua época, alheio à referência original, à principal ideia intencionada pelo autor na obra. No contexto do primeiro século da Era Cristã, Paulo já havia esboçado ensino à temática da predestinação em seus escritos. No século IV, Agostinho, bispo de Hipona, volta a tematizar a respeito por força de ensino contrário à doutrina apostólica paulina, mas como se dado à novidadeira pregação.
Com a Reforma Protestante do séc. XVI, Joao Calvino faz ecoar o legado paulino e agostiniano em som e tom desprovidos de ruídos:
De Genebra, onde viveu durante a maior parte de sua vida adulta, exerceu uma profunda influência, que se espalhou para a França, Inglaterra e Escócia. Nas regiões onde os princípios calvinistas prevaleciam, havia uma tendência a desenvolver a indústria e o comércio, ao contrário do "primitivismo agrário" pregado por muitos luteranos. O chamado "espírito capitalista de empresa" tem sido, portanto, frequentemente associado ao calvinismo, que figura em parte de forma proeminente na famosa tese de Max Weber sobre a estreita relação entre "protestantismo" e "capitalismo".
A diferença é esta. No caso do homem de acontecimentos, a preparação está em um estágio muito avançado. Requer um ato relativamente simples — um decreto, uma ordem, uma decisão de bom senso — para fazer a escolha decisiva. Ele pode “errar” seu papel ou deixar que alguém o roube dele. Mas mesmo que não o faça, isso não prova que ele seja uma criatura excepcional. Sua virtude ou vício é inferido a partir da consequência feliz ou infeliz do que ele fez, e não das qualidades que demonstrou ao fazer isso.
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