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LEITOR: LIVRO “DESENTERRANDO OS TESOUROS DE DEUS”

Os leitores encontraram um impactante tesouro literário para os conduzir a desenterrar os tesouros divinos na leitura do livro escrito por J. A. Lucas Guimarães, organizador do Blog Calvino21 , onde expõe e aprofunda os ensinos de João Calvino sobre o exercício espiritual da oração, sob o título: DESENTERRANDO OS TESOUROS DE DEUS: Os princípios da verdadeira oração ensinados por João Calvino ┐  Excelente leitura!  ┌ É um livro encorajador para quem busca viver o Reino de Deus, que já está no nosso meio.  Se você quer aprender mais das riquezas de Deus sendo confrontado, aconselho-te esse livro. Agora se você quer que seu ego seja massageado aconselho-te a não adquirir esse livro. Welington Marques da Silva Cliente da Amazon  à aquisição e leitura  do livro. Princípios para uma profunda e verdadeira oração à luz das Escrituras Sagradas! Neste pequeno livro, o autor capturou com maestria e vivacidade os ensinamentos e a visão do grande reformador João Calvino s...

CALVINO E O TRATO AOS HEREGES EM GENEBRA: BOLSEC

▪ ▪ ▪   Armando A. Silvestre

  Introdução

A tentativa do artigo não é defender ou acusar Genebra e Calvino, mas apurar alguns polêmicos episódios que ainda causam espanto, interpretações apaixonadas ou desarrazoadas, defesas e acusações sem o menor conhecimento de suas causas. Seria a Genebra do século XVI uma cidade em tempos de cólera? E Calvino, igualmente, seria também intolerante?

As questões relacionadas com a justiça genebresa, ainda que en passand, exigem uma necessária alusão ao trato de Calvino e Genebra com os heréticos, como Serveto, Bolsec, Castellion etc., quando ainda não existia o conceito de tolerância. Séculos adiante, Calvino foi criticado mordazmente e Serveto considerado como uma pessoa imolada por Calvino.

Não buscando defender Calvino, apenas querendo analisar seu contexto, é necessário lembrar que a polêmica condenação à morte na fogueira, de Michel Serveto, deu-se em 1553 e, a alguns séculos de distância do ocorrido, ainda ressoam as apreensões sobre tal monstruosidade, com todos os anacronismos de julgamentos fora daquele preciso contexto.

Tolerância? Ocorre que nem o conceito nem mesmo a palavra existiam no século XVI. Pode-se até elogiar, como honrosa exceção, o posterior empenho do filósofo francês Jean Bodin, que lutou em prol da tolerância entre católicos e huguenotes, na França daquele período. Porém, é necessário apontar que a tolerância, de fato, nasceu somente na década de 1680, nos ensinos dos iluministas; depois, se inscreveu na parte nordeste da Europa, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na verdade, é obra de um homem em particular: John Locke, no século XVIII.[1]

Como a tolerância, portanto, ainda inexistia naquele século XVI, pode-se recorrer a outro exemplo de um período próximo àquele: é importante lembrar que até mesmo o autor de “A utopia”, Thomas More, foi fiel ao seu ideal de humanista católico. More dava preferência à morte ignominiosa de traidores que renegassem os seus príncipes. Ele admitia a morte de hereges na fogueira, pois nada seria possível fazer com os hereges senão queimá-los (COTTRET, 1981).

Calvino também não foi tolerante. Mas, poderia ter sido, embora não se poderia esperar dele um declarado campeão da tolerância, das liberdades individuais e dos direitos civis da sociedade. Infelizmente, nem todo o senso filosófico das atitudes conciliatórias, do irenismo e da valorização da paz entre os cristãos, ou mesmo da indiferença que permita a coexistência, nada disso merece o nome de tolerância. Nesse sentido, a lógica de Calvino não apelaria para uma contradição de consciência, mas para uma “transação”.

O sucessor de Calvino em Genebra, Theodore de Beza, sempre sublinhou a clemência de Calvino. Para Beza havia apenas ocorrido uma execução de um herege: Serveto. Beza comparou Calvino e Genebra com as outras cidades suíças e alemãs, onde foram mortos muitos anabatistas, e então afirmou que houve casos semelhantes em que Genebra apenas baniu aqueles que considerava sectários.

Citou os exemplos de clemência para com Jérôme Bolsec, que havia blasfemado contra a providência de Deus. Foi clemente com Sébastien Castellion, que amaldiçoou livros das Escrituras Sagradas; e ainda com Valentin, que blasfemou contra a essência divina. Nenhum deles foi morto: Bolsec foi banido de Genebra. Castellion teve problemas apenas quando saiu de Genebra e foi para Basiléia. Valentin foi colocado no esquecimento, após pedir publicamente perdão a Deus e à Senhoria ou Pequeno Conselho da cidade (COTTRET, 1990).[2]

Diante disso, perguntava Beza: onde está a crueldade? Para ele, somente esse único herege, Serveto, foi queimado na fogueira, em mais de trinta anos (BÈZE, 1565, apud COTTRET, 1995). Ainda foi o mesmo Beza quem respondeu a Castellion, ex-professor da Academia de Genebra e outro acusado de heresia, afirmando a autoridade dos magistrados em punir os heréticos. Castellion foi condenado ao banimento e tornou-se professor da Sorbonne. O texto-resposta de Beza, datado de 1560, foi o Traité de l’autorité du magistrat en la punition des hérétiques et du moyen d’y procéder” (Tratado sobre a autoridade do magistrado em punir os heréticos e do seu modo de proceder).

Não se pretende arriscar conclusões, exceto fazer a ressalva de que se deve cuidar mais para não serem cometidos anacronismos e compreender que o erro de Calvino foi o erro de sua época. Atenuante? Em todo caso, um erro, um grande erro a ser sempre condenado.

Porém, respeita-se a própria organização política de Genebra e a forma como o Pequeno Conselho, ou Pequeno Conselho, reservava para si o poder de decisões. Soma-se a isso o fato de Calvino ser um estrangeiro na cidade, sem poder decisório. Apenas tinha o poder de levar ao Pequeno Conselho assuntos que os próprios síndicos que o compunham resolviam entre si. Então, é muito estranho atribuir a Calvino outro poder que não apenas esse.

Vale, portanto, analisar cada caso em que houve a participação direta ou indireta de Calvino para buscar compreender a sua época, a sua cidade, a sua postura e os limites de sua atuação, de sua ingerência em negócios políticos de Genebra, e de sua tolerância, ou mesmo de sua falta.

   Bolsec e a predestinação
▪ ▪ ▪
JÉRÔME BOLSEC
  Ano   1551   
Acusação    Predestinação  
  Sentença   Banimento
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Esse frade carmelita, parisiense e médico, Jérôme-Hermès Bolsec, se voltou contra Calvino e a doutrina da predestinação. Beza tratou Bolsec como homem cheio de nuances. Genebra assustava-se com o atrevimento desse carmelita que, em plena congregação, repreendia a doutrina da providência e discordava da predestinação. Era como se os calvinistas estivessem fazendo de Deus o autor do pecado e culpado pela condenação dos ímpios (BÈZE, 1565 apud COTTRET, 1995).

Calvino chegou a atribuir essa ignorância e insolência à sua formação monacal. Julgava que Bolsec merecia punição por seu ato de sedição. Mas que poderia ser tratado com mais doçura pelos magistrados. Afinal, poderia haver cura para esse ignorante sofista. O velho carmelita parisiense acabou instalando-se efetivamente em Genebra como médico. Em pouco tempo já foi convocado perante o Pequeno Conselho. Seus erros: recusava a predestinação e tinha ideias controversas acerca do livre arbítrio. Com certeza, a predestinação se constitui em um dos dogmas mais contestados do calvinismo doutrinário.

De fato, o que causa polêmica é a confusão com a dupla predestinação. Quem faz essa confusão acaba criticando o Deus que escolheu salvar alguns e também escolheu condenar outros. Entender a predestinação requer uma atenção maior e um espaço que não existe no artigo.

Mas, Bolsec foi mesmo imprudente e anunciava que o Deus pregado em Genebra era mentiroso e hipócrita, o patrono dos criminosos e pior que Satanás. Publicamente atacou Calvino, no dia 16 de outubro de 1551. Nas igrejas daquela época havia algo como grupos de estudos bíblicos que permitiam as contravenções e participações dos leigos. Bolsec se insurgiu contra a explicação predestinacionista. Logo à saída, Bolsec já foi conduzido à prisão do bispado, para aguardar o julgamento.

As autoridades civis tinham muita dificuldade técnica para julgar questão dessa importância. Não se achavam competentes para disputas tão altas e difíceis e restou a Bolsec confrontar Calvino acerca dessa doutrina que o médico julgava absurda. Ele enviou a Calvino um verdadeiro quebra-cabeças metafísico: os “Artigos propostos por Jérome Bolsec ao mestre Calvino, a fim de que ele responda categoricamente e sem razões humanas nem similitudes vãs, mas simplesmente através da palavra de Deus” (BÈZE, 1565 apud COTTRET, 1995, p. 178). Após tentativas e consultas às Igrejas de Berna, Basiléia e Zurique, o Pequeno Conselho de Genebra resolveu pelo banimento de Bolsec, em 23 de dezembro de 1551 (COTTRET, 1995).

O fato de ter desafiado a autoridade dogmática de Calvino e sua dificuldade em receber instruções, levou o Pequeno Conselho a optar pelo banimento daquele homem que poderia oferecer perigos à própria cidade. Prova disso é que após a expulsão de Bolsec, em 1552 ouviam-se nas tabernas e cabarés os motejos: “Calvino faz de Deus o autor do pecado.” Também em 1553, Robert Lemoine, refugiado normando, compareceu perante o Consistório por esposar essas teses muito pessoais (COTTRET, 1995). Não houvesse o banimento de Bolsec e o Pequeno Conselho teria problemas multiplicados até perder o controle. Esse era o problema que um herege representava numa comunidade daquele contexto.

Até mesmo entre os ministros surgiam dissensões. O pastor André Zébédée, de Noyon, e Jean Lange, de Bursin, pregaram contra as ideias de Calvino, em 1555 (COTTRET, 1995). Iniciando com Bolsec a pregação das teses anticalvinistas tomaram vulto nos anos seguintes. Berna precisou punir Sébastien Foncellet, o autor da epigrama que considerava Genebra como Sodoma e os ímpios como reformadores.

Bolsec retornou ao catolicismo, em 1577, treze anos após a morte de Calvino. Na ocasião, publicou o livro “História da vida, modos, atos, doutrinas, constância e morte de João Calvino, antigo pastor de Genebra” (ALMEIDA, 1996). Levantou, nesse livro, inúmeras falsidades e calúnias contra Calvino. Destilou toda a sua raiva contra o reformador. Acusou-o de arrogante, orgulhoso, cruel, maligno, vingativo e ignorante. Ainda se atreveu a caluniá-lo como sodomita ou homossexual, ladrão de prata, participante de uma falsa ressurreição, guloso e impuro.

Não é difícil rejeitar essas acusações uma a uma. Nem mesmo é necessário, face aos fatos históricos que são comprovados. No entanto, as falácias colaram e até hoje muitas dessas infâmias são tidas como verdadeiras pelos que ignoram a história de Calvino. Como se as fofocas prevalecessem sobre as narrativas abalizadas e historicamente verificadas. O livro de Bolsec circulou bastante. Foi condenado até mesmo pelos católicos, mas circulou porque parece que o povo gosta de ler coisas deste nível. Bolsec faleceu por volta de 1584.

  Conclusão

O que se sabe de Calvino no Brasil ainda é muito pouco. Há a triste constatação de que nem mesmo os que se dizem fiéis calvinistas conhecem algo de substancial desse reformador universal. Isso chega a estarrecer. Há mesmo alguns que se dizem guardiães da herança deixada por Calvino, mas que não conseguem passar das meras citações a favor ou contra, com acusações pesadas ou defesas apaixonadas. Leitura e compreensão para acusar ou defender? Quase nada. Conhecimento? Praticamente nulo.

Há alguns bons conhecedores de Calvino. Mas, parece que guardaram tudo isso para si mesmos. Por que não pesquisam e escrevem? Por receio ou por descaso, há o risco de se perder o rumo da história e o de perder também o norte para o presente e para o futuro.

Quem sabe alguns retratos ajudem os leitores a visualizarem e a descobrirem a importância de Calvino para o seu tempo e para hoje. Retratos de um homem e de seu tempo. Pois, sem dissociar esse homem de seu tempo é possível aplicar as interpretações de seu mundo e contextualizá-las na busca de soluções para os problemas de nossa própria época.

A opção por apresentar esse retrato de Calvino corresponde a apelar para algo não estático, mas sempre em movimento. No caso de Calvino, seus retratos congelam, condensam, identificam-se com a fugacidade do traço e com a verdade da alma. Portanto, se estão ainda em movimento, estão inacabados, e não poderão ser totalmente fechados ou concluídos. Calvino merece esse retrato em movimento.

Existem vários retratos contraditórios de Calvino. Mesmo que houvesse um só, ainda assim teria várias interpretações, de diferentes observadores. Todo personagem histórico passa por este crivo. O que se pode tentar é desenhar ou insistir em um retrato ainda inacabado do reformador.

Há vários detalhes e traços a considerar. Entre tantos, pode-se detalhar a primeira estada em Genebra e a tentativa fracassada de reforma por parte de Calvino e seu mentor Farel; ou a consequente expulsão de Calvino e o traçado de sua peregrinação por várias cidades como Basiléia, Genebra, Estrasburgo, até regressar novamente a Genebra.

Outros traços podem delinear o amadurecimento desse líder religioso e político, bem como as contribuições que posteriormente deu à cidade e ao mundo. Retratar Calvino é também fazer uma análise de seus escritos. Quando o foco é político, há que se privilegiar o que tange ao seu pensamento político, com todas as nuanças possíveis.

Para a fase de elaboração desse retrato é preciso buscar um entendimento melhor do plano de fundo, da paisagem ou do palco dos acontecimentos: Genebra e a revolução religiosa ocorrida no século XVI. Partindo desse contexto de reviravoltas no cenário religioso e político da Europa renascentista, é possível desvendar alguns traços de sua personalidade e ainda tentar algumas pinceladas sobre o pensamento desse personagem que, por sua vez, foi descoberto por Genebra.

Também é preciso viajar no tempo e no espaço para pintar melhor o plano de fundo: Genebra. A partir da cidade, se pode compreender o protagonista dessa história e descobrir o seu pensamento. A Genebra que ficou conhecida como cidade calvinista, no sentido próprio, era um lugar de refúgio para onde afluíam os insatisfeitos, os insaciáveis, os que amavam a Cristo, desejosos de construir uma sociedade cristã ideal, quinze séculos após a pregação de Jesus.
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Armando Araújo Silvestre  Doutor em Ciências da Religião (UMESP/SP), com a tese "O direito de resistir ao Estado no pensamento de João Calvino", é servidor público no cargo da docente. O texto publicado é parte do artigo de sua autoria, sob o título "Calvino e o trato com os hereges em Genebra." Disponível em: https://www.redalyc.org/jatsRepo/5765/576562065012/html/index.html#B05. Acesso em: 05/10/2020.
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 Notas
[1] Ainda a tolerância de Locke é distinta da liberdade de consciência, apregoada por Bayle, segundo o qual essa liberdade repousa sobre o direito de errar. No sentido estrito, a liberdade de consciência não admite qualquer restrição, contrariamente à tolerância que repousa sobre a arbitragem da sociedade. A este respeito ver: Cottret (1990).
[2] A esse respeito há um trabalho desenvolvido por Bernard Cottret (1990): Biographie, porém não caberia aqui a detalhada explanação acerca de cada um desses personagens. A indicação fica para os textos: “Bolsec et la foutue predestination”, v.1551, p.218-222; “Saint Servet, hérétique et martyr”, 1553; “Le bcher de Servet”, p. 223-227, 228-234; “Castellion”, p. 235-241.

 Referências bibliográficas 
ALMEIDA, J.T. Calvino e sua herança. [S.l.:s.n.], 1996. p.71.
BIÉLER, A. L’homme et la femme dans la morale calviniste. Genève: Labor et Fides, 1963.
COTTRET, B. Traducteurs et divulgateurs clandestins de la Réforme dans l‘Angleterre henricienne, 1520-1535. Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine, n.28, p.472, 1981.
COTTRET, B. Tolerance et liberté de conscience? Épistémologie et politique à l’aube des Lumières. Études Théologiques et Religieuses, n.65, p.333-350, 1990.
COTTRET, B. Calvin biographie. Paris: Jean-Claude Lattès, 1995. p.178-237.

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